terça-feira, 26 de outubro de 2010

Voto nulo não é omissão

Por Heitor Scalambrini Costa - Prof. da UFPE / Colaborador do PSOL
Sou daqueles que entendem que quase sempre o voto nulo é uma forma dos cidadãos e das cidadãs expressarem o seu descontentamento com o sistema político-econômico no ato eleitoral. Não basta só eleger. É preciso fiscalizar, participar, garantir o controle social, acabar com a impunidade, defender que o voto seja optativo.


Minha análise da conjuntura não aponta nem conclui que um eventual governo Serra seja um desastre total, o fim dos tempos, e o de Dilma não. O eventual governo Dilma é uma incógnita. Dilma não é Lula. Como João da Costa não é João Paulo.


Sou contra a volta do grupo representado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Mas lutar contra a direita não significa votar em Dilma Rousseff. Basta ver o apoio de alguns setores da sociedade a esta candidatura e a arrecadação de campanha da petista, com sinais da presença do grande capital nas eleições. Os gastos oficiais chegam aos R$ 200 milhões, sendo que os gastos reais giram em torno dos R$ 500 milhões.


Que um eventual governo Serra faça mudanças na política externa, particularmente com alguns de nossos vizinhos, seja mais truculento na repressão aos movimentos sociais parece evidente. Pelo que fala e fez. Em contrapartida a um tratamento distinto com estes movimentos, com menos repressão e com mais cooptação, de um eventual governo Dilma.


Quero que nesta eleição meu voto seja útil, para dizer que não concordo com tanta corrupção e tanta impunidade. Que não concordo com o sistema político atual baseado no nepotismo, na impunidade, e na fajuta democracia representativa. São na verdade os partidos que escolhem as pessoas em que iremos votar. Voto útil é voto nulo para dizer que ambos concorrentes são muito mais semelhantes, do que é falsamente propagandeado pelos quatro cantos.


Votar em Serra seria votar junto com Fernando Henrique Cardoso, Roberto Jefferson, Paulo Renato, Cesar Maia, Marco Maciel, Roberto Freire, figuras já conhecidas desse País. Votar em Dilma seria votar junto com Paulo Maluf, Fernando Collor, José Sarney, Jader Barbalho, Renan Calheiros, Inocência Oliveira, outras figuras também tão emblemáticas.


Sou contra o capitalismo, e luto pelo socialismo. A política econômica de ambos, Serra e Dilma, são favoráveis e privilegia o mercado, o desenvolvimento predatório vigente, a utilização dos combustíveis fósseis e da eletricidade nuclear. Não respeitam e nem preservam a natureza, visto o que ocorre em São Paulo e em todo o país. São essas mesmas políticas econômicas que nos coloca na vergonhosa posição de estar entre os dez países do mundo com maior desigualdade na distribuição de renda e na quantidade de emissão de CO2.


No 1º turno da eleição presidencial, 6.124.254 (5,5%) dos eleitores anularam o voto. Foram mais de três milhões que votaram em branco, exatamente, 3.479.340 (3,1%). E mais de 24 milhões de eleitores se abstiveram, o número exato é 24.610.296 (18,1%). Somando-se votos nulos e brancos mais as abstenções, temos 34.214.391, ou seja, 26,8% dos eleitores se recusaram a referendar qualquer um dos postulantes ao principal emprego público do país.


O voto nulo (ou em branco) é uma opção política legítima, direito democrática, seja qual for o seu caráter, e não deve ser caracterizado com adjetivos políticos e morais. Portanto, que cada cidadão e cada cidadã vote (ou não) com sua consciência e com plena liberdade de escolha. E você que for anular seu voto, esteja certo que votar nulo não é omissão.

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