quarta-feira, 30 de maio de 2012

A virtude não está nos extremos


Por Edilson Silva


O sistema ético Aristotélico nos ensina que a virtude se encontra no equilíbrio, no meio termo, e que os vícios são fartamente encontrados nos extremismos. Concordamos com Aristóteles. Quando tratamos de política cremos que não se está a procurar a virtude num meio termo entre as categorias direita e esquerda. O fundamentalismo do centro, neste caso, poderia ser interpretado como um vício. Também o centro, entre a direita e a esquerda, deve ter seu ponto de equilíbrio virtuoso.

Com a esquerda política não deve ser diferente. Encontrar um meio termo neste espectro, um ponto de equilíbrio, que conjugue e harmonize bem - a maior parte pelo menos -, de todos os tons e cores dos espíritos inquietos que se percebem como de esquerda, única forma de se trabalhar numa factível perspectiva transformadora da realidade, é o ponto de equilíbrio virtuoso que devemos perseguir. É o que seria uma esquerda de massas.

Muitos que nos acham demasiadamente radicais podem estar estranhando este texto. Mas é porque a sociedade é muito plural, e o que é equilibrado para nós, pode ser desequilibrado (extremado) a outros. Contudo, para outros, em número muitíssimo menor obviamente, esta busca de equilíbrio pode parecer uma postura moderada demais. É a vida. E é por isso que Aristóteles, que viveu quase meio milênio antes de Cristo, permanece atual.

Quando começamos a fundar o PSOL, ainda em 2003, pensávamos exatamente neste equilíbrio. Havia um vácuo virtuoso entre dois partidos com forte simbologia na esquerda brasileira: o PT e o PSTU, duas experiências que tinham muito a nos ensinar. O equilíbrio estava entre a não adaptação ao oportunismo eleitoreiro do PT, por um lado, e o afastamento do dogmatismo esquerdista infantil do PSTU, por outro.

Após nove anos de intenso trabalho de construção, lutando bravamente pelo equilíbrio no PSOL, observamos orgulhosos a nossa obra. O PSOL, este ainda pequeno partido, é a maior vitória da esquerda socialista brasileira nos últimos 10 anos. É o partido de Heloisa Helena, de Chico Alencar, Randolfe Rodrigues, Marcelo Freixo, Jean Wyllys, do Plínio de Arruda Sampaio, do Ivan Valente, da Janira Rocha e de tantos outros lutadores do povo deste país.

Apesar desta vitória, o PSOL não pode arrogar-se e autoproclamar-se o único portador das virtudes da esquerda transformadora do país. Biografias como as da deputada Luiza Erundina (PSB-SP), do senador Cristovam Buarque (PDT-DF), do senador João Capiberibe (PSB-AP), do senador Pedro Taques (PDT-MT), do senador Eduardo Suplicy (PT-SP), do deputado Paulo Rubem (PDT-PE), da ex-ministra Marina Silva (sem partido-AC), só para citar algumas, são exemplos de que há vida de esquerda e transformadora fora do PSOL, e que precisamos ter a humildade e a capacidade de dialogar com estes atores.

Além destas biografias, há inúmeros movimentos - partidários, apartidários e suprapartidários -, que podem e devem compor um quadro de frente de intervenção na realidade brasileira. É o caso, por exemplo, do Partido Pirata, da Consulta Popular, do Grupo Direitos Urbanos de Recife no facebook, de movimentos juvenis como o MUDA-Direito e tantos outros. O PSOL, se qualquer destes movimentos resolverem transformar-se em partido político, tem a obrigação moral de apoiar, pois fomos apoiados por muitos quando de nossa fundação. Infelizmente, partidos como o PSTU se negaram a contribuir com nossa fundação chegando ao cúmulo de ir à TV em seus poucos segundos de propaganda pregar o boicote à legalização do PSOL. O vício do extremismo, neste caso, foi gritante.

É nesta perspectiva que trabalhamos no PSOL. Sem autoproclamação, sem fundamentalismos, com humildade, reconhecendo nos atores externos ao PSOL as virtudes que podem se somar às nossas para transformar a realidade de nosso povo sofrido. Aqueles que querem levar o PSOL ao abraço suicida com setores extremistas, dogmáticos, fundamentalistas, sectários,  podem fazê-lo, mas precisam respeitar minimamente o nosso direito de apontar outro caminho para a esquerda brasileira. Se Marina Silva, por exemplo, decidir fundar um novo partido, contará com nosso apoio total, o que não significa sair do PSOL, mas apoiar um aliado a nascer de forma autônoma para a luta institucional.

Presidente do PSOL-PE e Secretário Geral Nacional do PSOL


quarta-feira, 23 de maio de 2012

As ameaças que vêm da Ásia


Por Ricardo Antunes, da Folha de São Paulo de 23/05



Desde meados dos anos 1970, o Oriente vem dando "lições" de capitalismo para o Ocidente. Do toyotismo, por exemplo, muito já se falou, com seu ideário conhecido: "kanban", "just in time", "kaizen", células de produção etc.

Mas é muito curioso: os seus manuais apologéticos nunca abriram espaço para "karoshi", que significa a morte por excesso de trabalho, ou para "karojisatsu", suicídio que é decorrência da intensidade e do caráter extenuante do trabalho - em 2010, foram mais de 30 mil casos na chamada terra do sol nascente.

Lá também encontramos jovens decasséguis que migram em busca de trabalho nas cidades e dormem em cápsulas de vidro -algo que denominei "operários encapsulados".

Mais recentemente, em Tóquio, trabalhadores terceirizados contratados diariamente ("hiyatoi-arbeit") procuram refúgio noturno em cibercafés. Assim, ficam conectados durante a madrugada, aptos para serem convocados para um novo trabalho eventual na manhã seguinte. Nesses lugares, conseguem também descansar um pouco, pois muitos são migrantes que não dispõem nem sequer de casas ou dormitórios.

Mas há ainda outro exemplo emblemático que vem do Oriente.

É na China atual que as engrenagens do capitalismo das transnacionais, em afinada simbiose com o Estado, levaram a superexploração da classe trabalhadora ao limite.

O caso da Foxconn é elucidativo. Fabrica do setor de informática e das tecnologias de comunicação, é exemplo de ECM (electronic contract manufacturing), empresa terceirizada responsável pela montagem de produtos para a Apple, Nokia, HP e várias outras transnacionais.

Em sua unidade de Longhua (província de Shenzhen), onde são fabricados os iPhone, desde 2010 ocorrem suicídios de jovens trabalhadores, em sua maioria evidenciando sua intensa exploração, os salários degradantes e o isolamento ao qual estão submetidos. Habitam quartos minúsculos e superlotados -que, aliás, têm telas nas janelas, para evitar mais suicídios.

Produzem aparelhos aos milhões e, em geral, nem imaginam como funciona a mercadoria produzida, levando o fetichismo maquínico à forma mais fantasmagórica.

Esse é o padrão chinês de exploração do trabalho. Ele vem se configurando como uma tendência agressiva em escala global, como as condições de trabalho na Índia mostram.

Segundo a organização Sacom (de "Students and Scholars Against Corporate Misbehaviour", algo como "Estudantes e Acadêmicos contra o Comportamento Impróprio das Corporações"), os operários da Foxconn, centenas de milhares, trabalhavam em média 12 horas por dia, recebendo com salário mensal básico de 900 yuans (menos de US$ 150 ou R$ 300), que poderiam dobrar em função das horas extras que realizavam.

Disposto a investir no Brasil, o taiwanês Terry Gou, presidente da Foxconn, lascou seu comentário, afirmando que brasileiros "não trabalham tanto, pois estão num paraíso". E não é crível que ele desconheça o enorme contingente de trabalho escravo que ainda existe aqui.
Não é difícil entender porque a China atual tem as mais altas taxas de greve no mundo. Enquanto a luta de classes burla a sepultura, o modelo taiwanês ameaça o "paraíso".

RICARDO ANTUNES, 59, é professor titular de sociologia na Unicamp. É autor de "O Continente do Labor" (Boitempo) e "Adeus ao Trabalho?" (Cortez)