sábado, 2 de outubro de 2010

Debate nas linhas e entrelinhas

Por Edilson Silva
Escrevo estas linhas embalado na perspicácia do jornalista Ivan Moraes Filho, que postou em seu blog, Bodega, um texto muito interessante após o debate entre os candidatos ao governo de Pernambuco na TV Globo: “Notas sobre um debate eleitoral”. Ivan captura e externa, com o bom humor que lhe é peculiar, a malandragem dos candidatos nos embates diretos.


Dentre as malandragens, a arte da fuga é desnudada num parágrafo: “Se alguém ouve uma pergunta que não quer responder, não faz a menor diferença. A resposta não precisa necessariamente (ter) relação com o questionamento. Em muitos momentos, qualquer debate pode tornar-se uma entrevista no carnaval de Olinda, quando o repórter pergunta: ‘Tá gostando da festa?’ e o folião tapa os ouvidos e enche a boca para gritar: ‘Minas Geraaaais!!’”. Impagável.


Perguntas sem respostas no debate da TV Globo: qual a diferença significativa entre uma média de 4.400 homicídios por ano no governo Jarbas (segundo mandato) e 4.380 homicídios por ano (2007, 2008, 2009) no governo Eduardo Campos? Qual a opinião do candidato sobre o protocolo ATLS (Advanced Trauma Live Support), utilizado pelo Hospital da Restauração há 20 anos, que indica que ali a prioridade é para quem tem mais chance de vida e não para quem tem mais possibilidades de ir a óbito? O que é pior, colocar a estrutura da Polícia Civil a serviço de uma companhia privada, Celpe, para cortar a energia elétrica da população, colocando praticamente na esfera criminal uma demanda que no máximo seria da esfera civil, ou tratar a água para populações de baixa renda como mercadoria, colocando os inadimplentes da Compesa no SPC?


Os foliões, digo, candidatos, que governam ou já governaram, simplesmente tapam os ouvidos, olham no fundo das câmeras e, sem cerimônia, dizem o que bem querem. Cabe aos eleitores, neste caso os que têm capacidade para tanto, identificar as contradições e ir percebendo o que existe de verdade e inverdade, o que é exeqüível e inexeqüível, o que é necessário e o que é pirotecnia.


Entre os candidatos às vezes é possível e necessário encurralar de fato um ou outro candidato, de modo que mesmo o eleitor menos esclarecido, mesmo sendo um analfabeto funcional, tire importantes conclusões. Mas esta empreitada envolve ir ao limite da desmoralização de uma das partes, envolve desafiar publicamente, exigir a verdade com fatos, levar as contradições às últimas conseqüências, e o debate não pode descambar para ser somente isto, como se cada debate devesse ser um tudo ou nada. O eleitor, sobretudo o esclarecido e com honestidade intelectual, precisa fazer sua parte, que é tirar suas conclusões, lendo as linhas e as entrelinhas dos debates.


Candidato ao governo de Pernambuco pelo PSOL

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