terça-feira, 13 de agosto de 2013

Sobre a esquerda, a direita e o neo-PT

Por Edilson Silva

Dia desses o ex-presidente estadual do PT, Dilson Peixoto, figura de proa deste partido, disse em entrevista a uma rádio local que o PSOL não era um partido de esquerda, mas tão somente de oposição. Sustentou o delírio afirmando que o PSOL sempre se somava à direita em votações nos parlamentos. O delírio se mostrou profundo quando afirmou também que o PT é um partido genuinamente de esquerda. Talvez fosse mais adequado chamá-lo de “genoinamente” de esquerda.

As direções do PT e seus satélites partidários que se intitulam de esquerda fazem uma propaganda sistemática sobre uma suposta não natureza de esquerda do PSOL. Os pseudocritérios utilizados pelos dirigentes petistas são de ordem meramente retórica, um claro charlatanismo. Dividem o mundo da política em dois lados: os que estão com eles – estejam onde estiver, nem que seja no banco dos réus do Mensalão - são de esquerda; e os que estão do outro lado são de direita.

Misturam malandramente – por ignorância ou apostando na ignorância alheia – o que é ser de esquerda, anticapitalista, classista ou de oposição. Ora, um partido pode ser de oposição a um governo e ao mesmo tempo ser embasado socialmente numa classe empresarial ou na classe trabalhadora; defender economicamente o liberalismo ou defender teses anticapitalistas. A condição de oposição ou situação, pura e simplesmente, não define critérios de classe, tão pouco de esquerda ou direita.

A Esquerda – que é um conceito meio fluido no senso comum - é uma categoria essencialmente política e não necessariamente social. A burguesia era de esquerda e revolucionária nas lutas que culminaram com a Revolução Francesa. O conceito de esquerda e direita vem de lá, inclusive. Nos primeiros parlamentos que minavam o poder da monarquia francesa, os que queriam mudar a sociedade, fazê-la avançar contra os privilégios da nobreza e do clero, sentavam-se à esquerda do Rei. Os que queriam conservar a sociedade com os privilégios para poucos, sentavam-se à direita do Rei. Os de esquerda eram os progressistas e revolucionários, contestadores do poder e do regime. Os de direita, os conservadores e reacionários.

O PT no poder perdeu grandes chances de se posicionar a esquerda do “Rei”. Onde está o PT na luta contra a imoral e ilegal dívida pública que enriquece ainda mais os banqueiros em detrimento das demandas mais caras do povo, como saúde e educação? À direita. Onde está o PT no poder no combate à máfia das empreiteiras que sangram o orçamento público e do BNDES? À direita. Onde está no combate ao latifúndio e em favor da reforma agrária que dê dignidade às populações campesinas? À direita. Onde está na democratização das comunicações? À direita.

Mas o PT no poder tem uma pauta ideológica de esquerda! E pra que serve ideologia se não se confirma em programa e políticas públicas efetivas? Cria espaços de promoção da cidadania LGBT, das mulheres, dos negros, dos direitos humanos, mas faz acordo com o Vaticano para ensinar seus dogmas no serviço público de educação e dá a comissão de Direitos Humanos da Câmara para os fundamentalistas neopentecostais, enquanto os espaços de promoção de cidadania das populações historicamente oprimidas não tem orçamento para trabalhar e servem mais para promover pessoalmente lideranças facilmente cooptadas. À direita, de novo.

O PSOL e seus parlamentares então não podem votar a favor de um salário mínimo maior que aquele encaminhado pelo governo do PT, só porque o DEM e o PSDB – oportunistamente – apresentaram uma proposta de salário mínimo maior? Neste caso, não é o PSOL que está à direita, mas o PT no poder que está mais à direita que a direita clássica e assumida. Chega a ser constrangedor.

Na semana passada, outro episódio marcou esta sina do PT de se achar o “Marco Zero” da esquerda. Estudantes e populares que compõe a Frente de Luta pelo Transporte Público acompanhavam uma audiência pública na Câmara de Vereadores do Recife, convocada por um vereador “de direita”. Em meio à audiência, por conta da truculência da polícia que estava do lado de fora reprimindo outros jovens, decidiram ocupar a Câmara. Exigiam a abertura de uma CPI e a aprovação do Passe Livre, além da soltura dos presos.

A CPI precisava de 13 assinaturas para ser instalada. Os quatro vereadores da oposição – de direita - prontificaram-se a assinar. Dos 5 vereadores do PT, Jurandir Liberal, Luís Eustáquio, Jairo Brito, Henrique Leite e Osmar Ricardo, apenas este último se dignou a ficar na Câmara com os ocupantes e disse que assinaria o requerimento da CPI. Os demais desapareceram. O PSOL estava lá, inteiro, com seus militantes e este que vos escreve, resistindo com a juventude. Onde estava o PT, tão de esquerda?

O PT ainda tem tempo de assinar o requerimento e mostrar que não teme desagradar as empresas de transporte coletivo que se favorecem da concessão do transporte público em nossa cidade. Ainda tem tempo de mostrar que, ao menos no âmbito municipal, não está tão à direita, pois o que separa esquerda de direita são critérios programáticos e práticos e não meramente ideológicos e retóricos.

Presidente do PSOL-PE