sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Reserva do Paiva: saem maracatus e afoxés, entram paraísos artificiais e e-music

Por Edilson Silva
 
A guetificação voluntária é um fenômeno social que (ouvi dizer) pensadores como Zigmunt Balman já trouxeram à luz com propriedade, dentro do contexto do debate sobre a busca de segurança no mundo atual. Tendência de comportamento e de mercado (e vice-versa) no final do século passado e início deste, em busca de distância do convívio com tudo que os centros urbanos caóticos trazem como produto e subproduto, setores elitizados constroem seus guetos e neles tentam viver como numa bolha. Condomínios verticais nas áreas centrais das cidades mais parecem presídios de luxo, pelas guaritas e altura dos muros, pelas áreas internas para banhos de sol e exercícios físicos, pelas linhas de serviços que ali dentro se multiplicam. Condomínios horizontais, mini-cidades - como os Alphavilles que se espalham, lembram fortalezas medievais.
 
Toda esta dinâmica é em essência segregacionista e atua dialeticamente no sentido de acelerar o aprofundamento do colapso urbano que vivemos na habitação, na mobilidade urbana, na segurança pública. Toda esta construção nos leva à seara dos direitos da coletividade, dos direitos difusos, em que direitos individuais não podem sobrepor-se ao que podemos chamar hoje nas cidades de Direitos Urbanos. Contudo, há construções específicas, mas que se inserem nesta dinâmica de guetificação, que nos causam indignação também específica, e mais profunda também. É o caso da Reserva do Paiva, no Cabo de Santo Agostinho.
 
Ali, a poucos quilômetros do Recife, estão tentando construir uma África do Sul dos tempos em que Nelson Mandela ainda estava encarcerado. Trago à tona, de novo, o tema da Festa da Lavadeira. E trago por conta de mais uma grande festa que se realizará naquela “Reserva Ambiental” no próximo sábado, 24/11. Os organizadores prometem quase 20 horas de muita festa ao som do melhor da e-music mundial.
 
Em abril próximo passado já denunciamos a realização de outra festa naquela suposta reserva ambiental (na verdade uma reserva de mercado). O nome era sugestivo: Paraísos Artificiais. Aos iniciados no assunto, não pensem que eu não gosto de festas, pelo contrário, se pudesse iria a todas. O problema é que há uma festa específica, tradicional, de cunho religioso e em cujos palcos só sobem folguedos populares; que é patrimônio cultural e imaterial devidamente aprovado em lei, com 26 edições anuais ininterruptas, prêmios e reconhecimento nacional e internacional, que foi proibida de se realizar naquela praia: a Festa da Lavadeira.
 
Um conluio de empresários com o poder público construiu uma lei municipal que, na prática, impediu a realização de uma festa popular, num único dia no ano, e que já chegou a reunir 80 mil pessoas. Detalhe: como a suposta reserva surgiu após a Festa da Lavadeira já existir ali, o Estudo de Impacto Ambiental para liberar a construção do empreendimento Reserva do Paiva determinou que este não poderia obstruir a realização da Festa da Lavadeira. Virou letra morta.
 
Isto é uma afronta à lei, ao estado democrático de direito, à cultura popular, aos patrimônios imateriais construídos ao longo de séculos e que dão identidade ao nosso povo. Creio que já existe material comprobatório suficiente para se fazer um questionamento ao Ministério Público e outras instituições e pedir providências. Isonomia é o mínimo que se deve exigir neste caso.
 
Presidente do PSOL-PE 

2 comentários:

  1. Em conjunto com a Festa da Lavadeira, vários outros espaços de encontros e debates vivos da cultura popular estão minguando com o avanço desse estilo de vida pautado no consumo (consumo de produtos e da sua concomitante transformação da própria vida e das interações sociais em produtos de consumo). Sob o discurso do "progresso" e da "melhoria" de determinados pontos na região metropolitana do Recife, muito da Cultura se perdeu, como as rodas de capoeira nas ladeiras de Olinda, ou a mercantilização que vem se dando por todo o bairro do Recife Antigo, transformando o fazer Arte em vender "artes".
    Sou a favor da retomada dos espaços que foram conseguidos e compartilhados através da luta do povo.

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  2. Realmente é uma vergonha. Vergonha maior é a taxação que as pessoas que enxergam estes problemas recebem dos outros membros da sociedade. Sempre se cria um contexto no qual quem contesta é ridicularizado ou recebe o status de "revoltado". Aproveito para relembrar uma causa bastante importante na saúde a ser resolvida no início de 2013, que é a implantação da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (EBSERH) na UFPE, leia-se no HC. De acordo com a UFPE nenhuma medida será tomada em Janeiro e Fevereiro. Em março virá a BOMBA. Eu não consigo achar explicação que mude o meu ponto de vista acerca da privatização. Privatização = Falta de Boa Gestão. Privatizar é reconhecer a incapacidade de gerir bem. Exaurem um órgão até que este fique extremamente debilitado ao ponto de colapsar. Não havendo o mínimo de condições para que haja funcionamento eles reinventam a roda ao sugerirem o pagamento a terceiros pela revitalização e administração do que deteriorarm. Alguns dirão: - Mas a EBSERH não será "privada"!!
    Ela apenas vai gerir quem entra e quem sai para prestação dos serviços. Nesta segunda etapa do processo é que entra outro tipo de ação, no mínimo suspeita, onde empresas X serão indicadas ("contratadas") para desempenhar os trabalhos nos Hospitais Universitários. Quem garante que a saúde vai melhorar? Quem garante que não haverão favorecimentos? A saúde do Estado nas mãos do... ah! Todos sabem! ... já não é um excelente exemplo do que virá a ser a implantação da EBSERH?

    Eles já estão mexendo os pauzinhos sorrateiramente. A UFRN já fez sua maracutaia.

    http://www.seepe.org.br/index.php?categoria=noticias_principais_01&cat=&codigo_noticia=08012013091500&pag=5

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