segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Declaração de voto de Edilson Silva e Ronaldo Santos na recente reunião da Executiva Nacional do PSOL


Na recente reunião da Executiva Nacional do PSOL debatemos e votamos resoluções avaliando as eleições em 2012 e a atuação do PSOL no processo. Três proposições foram apresentadas formalmente à votação. Os que subscrevem esta declaração votaram na proposta apresentada pelo presidente do PSOL, Ivan Valente, que recebeu ao final 8 votos, conformando posição majoritária na instância. No momento da votação, declaramos voto crítico nesta proposta, comprometendo-nos em divulgar à Executiva e ao conjunto do partido nossas razões.
O caminho natural nos levaria a apresentar resolução conjunta com os companheiros Jefferson Moura, Janira Rocha e Martiniano Cavalcanti – também membros da Executiva Nacional, e que conosco compuseram um campo e chapa no último congresso do PSOL. Contudo, particularidades conjunturais e o fato de não estar em questão apenas o balanço do processo eleitoral, levou-nos a compor, nesta votação, com o campo político do companheiro Ivan Valente.
Elencamos abaixo apenas alguns aspectos para o debate e que julgamos necessário se jogar mais luz nas discussões internas, de forma que possamos de fato retirar das lições de 2012 um aprendizado para nosso jovem partido e sua militância.

1.       É inegável o crescimento e a vitória do PSOL nestas eleições. Não só nas cidades onde passamos dos dois dígitos e onde fomos ao segundo turno e vencemos, mas também em outras onde os números talvez não reflitam bem este crescimento. Os resultados em Maceió, Vitória, Belo Horizonte, João Pessoa, Porto Velho, Campinas, Niterói, Viamão, só para citar algumas cidades, precisam ser bastante comemorados e mostram o espaço que se abre à reorganização de uma esquerda anticapitalista com influência de massas no Brasil. Contudo, entramos neste processo como uma “colcha de retalhos” e saímos dele como uma “enorme colcha de retalhos”. O PSOL reafirmou-se como uma frente de correntes e não conseguiu ver brotar de dentro de si um projeto hegemônico imponente internamente, que possa se expressar naturalmente por uma liderança nacional, como o fez Heloisa Helena num primeiro momento. Talvez o maior consenso – ou menor dissenso, tenha se criado em torno do nome do companheiro Marcelo Freixo, pelo nível, volume e visibilidade nacional da campanha no Rio de Janeiro. Contudo, é absolutamente compreensível e razoável – inclusive pela fotografia do PSOL nesta conjuntura, que o companheiro Marcelo Freixo já tenha se decidido por priorizar um projeto político nos limites do Rio de Janeiro até 2016.

2.       Ao mesmo tempo, resta claríssimo deste processo a importância estratégica das eleições nas disputas que fazemos na sociedade brasileira. A despeito de nossa ainda quase inexpressividade nos movimentos sociais organizados, a nossa firme presença institucional – nossos parlamentares são brilhantes -, viabilizou nossa identidade com as mobilizações populares e com as lutas sociais no país. As eleições se revelam momentos de disputa de projetos estratégicos e de certa forma o ápice desta disputa no imaginário da sociedade. Por mais óbvio que isto pareça, é necessário reafirmar neste balanço este fato, dadas as discussões internas que ainda temos acerca do tema da estratégia política.

3.       Se o escrito acima está minimamente correto, está também nítido que o PSOL tem uma gigantesca tarefa no próximo período, que é buscar dar contornos nítidos a um projeto político nacional que o unifique o mais possível e a uma amplíssima vanguarda em todo o país, e que ao mesmo tempo sirva de horizonte para contribuir na reorganização dos tradicionais e também novos movimentos sociais, tarefa esta que já havíamos elencado no 3º Congresso do PSOL em nossa tese (Um passo em direção ao Brasil real), como das prioritárias do PSOL para afirmar-se como alternativa anticapitalista no Brasil.

4.       Há também um fator na avaliação do processo eleitoral que não pode escapar ao PSOL: a intervenção do movimento liderado por Marina Silva. Diferentemente do que sempre propusemos para Marina Silva e seu Movimento Nova Política - que era um diálogo em torno de temas estratégicos e de forma institucional com o PSOL, e não apenas com lideranças e agrupamentos internos -, o que vimos no processo eleitoral foi o aprofundamento de uma relação de mais “varejo político” com o PSOL, varejo que também podemos ver por todo o país com outras siglas e lideranças, combinando e articulando – propositadamente ou não, uma desresponsabilização com a construção de alternativas pela esquerda para a política no país, razão pela qual podemos afirmar a perda de condições de seguir buscando o diálogo no patamar que antes pretendíamos.

5.       Outro fator importante que precisamos debater com mais profundidade é o fortalecimento do Lulismo e do pior do petismo. A simbologia maior deste quadro foi a vitória de Haddad em São Paulo, com o apoio prévio de Maluf. Este fator, combinado com a vitória do governador Eduardo Campos e seu PSB, assumindo forte presença, sobretudo, na região nordeste, constroem um vetor de fortalecimento da ala mais social liberal do campo da chamada Frente Popular, o que leva maiores contradições para os setores honestos de esquerda que ainda residem neste campo.

6.       Em relação às polêmicas envolvendo as nossas candidaturas em Macapá e Belém, reafirmamos que não vemos problemas em receber apoios manifestados por lideranças de partidos que não compõem o arco de alianças autorizado pelas instâncias partidárias. Esta reafirmação é ainda mais clara em relação ao 2º turno, em que um caráter praticamente plebiscitário toma conta das eleições.

7.       Especificamente sobre Macapá, temos sérias críticas à forma como o recebimento dos apoios foi conduzido. Apoios de lideranças do DEM e PSDB não podem ser recebidos de forma festiva e com declarações que deem margens a interpretações que constranjam nossa militância. Ao mesmo tempo, condenamos veementemente a postura de determinados setores do partido que rompem as fronteiras internas e vão à crítica pública aos nossos candidatos e lideranças, dando munição aos nossos adversários imediatos na disputa, ainda mais quando esta crítica é seletiva, pois não vimos similar indignação à presença de liderança do PSDB na campanha do Marcelo Freixo no Rio de Janeiro. Felizmente, os companheiros de Macapá, o prefeito eleito Clécio Luís e senador Randolfe Rodrigues, já fizeram as devidas autocríticas.

8.       Ainda sobre Macapá, as atenções do PSOL devem estar voltadas agora à gestão da cidade. A primeira gestão numa capital do PSOL deve estar sob permanente vigilância e apoiamento, de forma que se constitua num exemplo de governo popular e democrático.

9.       Sobre Belém, entendemos ser algo que mereça sim um balanço mais profundo. Mais uma vez, não se trata de negar a presença e apoio de Lula e Dilma na campanha do PSOL, mas neste caso nossa crítica vai além da forma como recebemos os apoios. As peças publicitárias que podemos ter acesso mostram um apoio muito equilibrado e respeitoso da presidente Dilma Rousseff, que foi ao nosso programa afirmar que nosso candidato era o melhor e que faria as parcerias necessárias com o nosso governo, ou seja, algo que se insere dentro do pacto federativo e que o povo espera de quem elegeu. Mas, receber o apoio de Lula defendendo o governo Lula em nosso programa foi um equívoco profundo. Mais que isto, abrir espaços no imaginário popular da cidade e do Estado para se reeditar a polarização PT versus PSDB numa capital em que o PSOL está no 2º turno contra o PSDB, e que foi algo que percebemos em alguns debates protagonizados pelo nosso candidato Edmilson Rodrigues, foi uma opção que – tudo indica, foge ao espectro da mera tática eleitoral e avança para um campo de mais longo alcance. O PSOL já fez na eleição passada um gesto tão ou mais ousado, quando no Rio Grande do Sul abriu mão de uma candidatura ao senado, em plena reta final de campanha, para apoiar o então candidato Paulo Paim, do PT, que acabou se elegendo. Não é novidade, portanto, tais movimentações no PSOL, mas é inegável que agora pode ter havido uma mudança de qualidade. Cremos que seja necessário – e estamos reivindicando isto da direção da campanha e do PSOL em Belém, um balanço mais acabado, mais minucioso, para que possamos tirar conclusões de maior fôlego deste processo.

10.    O texto aprovado pela Executiva Nacional toca nas eleições na cidade de São Paulo também, fazendo avaliações específicas sobre o desempenho do PSOL nesta cidade. Destacamos este ponto como algo em aberto para nós, pois não nos apropriamos suficientemente daquela realidade e entendemos que dada a importância da cidade – a maior do país, e pelo fato de ter-se dado a ela este peso no balanço por parte de um importante setor da direção do partido, seria conveniente a direção partidária local municiar o conjunto da Executiva Nacional com suas considerações de balanço.

11.    Por fim, acreditamos que este debate deva seguir no PSOL, não como uma disputa interna, mas como o exercício do debate político necessário ao desenvolvimento do próprio PSOL. Neste sentido, lamentamos que um processo tão rico e vitorioso para nosso partido, e que poderia nos emprestar lições de caráter estratégico – se melhor avaliado, venha se convertendo majoritariamente em mais uma arena para disputas conjunturais despolitizadas por parte de alguns dirigentes e suas correntes internas, visando por um lado a legítima busca de hegemonia interna no PSOL e, por outro, antecipar da pior forma o debate sobre as eleições em 2014. De nossa parte queremos e vamos continuar fazendo o debate interno buscando o melhor posicionamento do partido na política brasileira e sempre numa perspectiva de influenciar cada vez mais nos rumos do nosso povo, em direção a uma sociedade essencialmente socialista.

Edilson Silva – Secretário Geral Nacional do PSOL
Ronaldo Santos – membro suplente da Executiva Nacional do PSOL

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