quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Secretário Insustentável

Por Esdras Peixoto *

Uma ameaça ambiental foi anunciada com pompa e circunstância nestes últimos dias: o grupo Bertim e o governo do Estado de Pernambuco vão instalar no complexo de Suape a maior usina termoelétrica do mundo, com capacidade para produzir 1.452 MW de potência instalada, denominada Suape III . A nova, nada boa, ao menos na avaliação do movimento ambiental, da mídia e da sociedade civil foi assumida pela administração estadual como mais uma importante conquista para colocar Pernambuco no rumo do desenvolvimento.

Para quem não sabe, termoelétrica é uma tralha gigantesca que queima óleo para produzir energia. Essa dinâmica operacional é poluente ao extremo. O governador Eduardo Campos, com a aquiescência de seu secretário da sustentabilidade Sérgio Xavier, quer ver implantada no Cabo de Santo Agostinho nada menos que a maior usina deste tipo de sujo e poluidor do mundo!Calcula-se que Suape III irá despejar por volta de 8 milhões de toneladas de CO2 na atmosfera. Nada mal, hein, senhor secretário?

Confirma-se, desse modo, que a política de crescimento a qualquer custo do governo Eduardo é equivocada e inconsequente: opta-se por abraçar um modelo de matriz energética anacrônico e danoso ao meio ambiente. Depois de anunciar uma usina nuclear para a cidade de Itacuruba – projeto que depois do desastre de Fukushima e da forte pressão de setores ambientalistas independentes foi, ao menos por enquanto, deixado de molho – o governo volta a carga ao tornar pública a intenção de dotar Pernambuco do século XXI de contornos da Inglaterra vitoriana dos livros de Charles Dickens, isto é, insalubre e fumaçenta e o que é mais grave: tudo isso no meio do manguezal e bem próximo ao maior complexo turístico de Pernambuco que atrai investimentos limpos.

As perguntas recorrentes nas mídias sociais após o fatídico anúncio foram no sentido de saber como o secretário Sérgio Xavier encararia essa ostensiva irresponsabilidade ambiental. Durante algum tempo ele permaneceu calado. Da expectativa passou-se a cobrança. Sua posição de homem público e seu passado de compromisso com o movimento ambientalista demandavam a urgência de sua fala.

Sérgio Xavier, militante histórico da causa ambiental, liderança do Partido Verde em Pernambuco, que fora candidato ao governo do Estado com o discurso da proteção dos ecossitemas, empregos verdes, economia de baixo carbono e agora secretário da pasta do meio ambiente estaria vivendo seu maior constrangimento como homem público? Ironia do destino, a notícia da termoelétrica surge exatamente na semana em que Sérgio se preparava para alardear seu papel de destaque na formulação de uma nova forma de fazer política, após de participar de um encontro convocado por Marina Silva.

Depois de um longo e embaraçoso silêncio que durou três dias – uma eternidade em se tratando de algo tão grave que causou um reboliço tremendo na sociedade pernambucana – finalmente o secretário apareceu. Seu pronunciamento foi, sem dúvidas, melancólico. Ladeado pelos secretários do desenvolvimento econômico, Geraldo Júlio e dos Recursos Hídricos, João Bosco, este desde o primeiro momento escalado para defender o governo nos assuntos que envolvem os fracassos e desacertos na gestão ambiental, Sérgio estava enquadrado. Sua assessoria emitiu nota afirmando que “conceitualmente a secretaria do meio ambiente e da sustentabilidade defende que a termoelétrica utilize gás natural”. Esse é o lugar que Sérgio Xavier reservou para sustentabilidade na sua pasta: o conceitual. Acontece que a política, local onde se dá a ação concreta, onde a prática modifica a realidade já foi pautada e não pelo conceito tão caro ao secretário. A dura realidade por enquanto é aquela acenada por Fernando Bertim, diretor da Star Energy, empresa pertencente á holding Bertim, ao afirmar que “a conversão do projeto da termo para gás natural depreciaria o investimento”. Tese complementada pelo governador Eduardo Campos, para quem Suape III “é uma obra para começar ontem e terminar amanhã”.

Como se vê, o balizamento para a elaboração dos estudos de impacto necessários ao licenciamento ambiental já foram colocados: nada de tempo para análises aprofundadas, nada de questionamento técnicos mais acurados. Nesta sangria desatada, na lógica da pressa do capitalismo predatório, não há tempo – nem vontade- para se ouvir o conjunto da sociedade civil organizada.

Voltando a falar de nosso secretário, percebe-se com clareza que ele capitulou de sua convicções primeiras em nome da conveniência de estar numa pasta e de ter um projeto político pessoal a curto prazo, e revelando sua contradição com a nova forma de fazer política da qual se pretende um aderente de primeira hora.

Sérgio Xavier está sendo incapaz de convencer o governador Eduardo Campos, os seus pares de secretariado – e quem sabe a si mesmo – que as potencialidade que dadas pela Natureza à Pernambuco , como os ventos e o sol durante quase o ano inteiro, devem ser encaradas como comodities. Mais do que isso, seu papel estratégico no governo é de garantir a sustentabilidade dos projetos do governo, ou seja, dar a aparência de legitimidade do ponto de vista do meio ambiente ao desenvolvimentismo mofado e ambienticída de Eduardo Campos.

Gostávamos muito mais do Sérgio ambientalista de 2010 que da versão burocrática e esvaziada de 2011. Nosso secretário está se tornado insustentável.

*Esdras Peixoto, advogado, professor universitário é presidente do PSOL Recife.

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