sábado, 16 de abril de 2011

Erickson Luna: um poema andante.

Escrevi este artículo no dia 19 de abril de 2007. Dia em que foi sepultado em Santo Amaro o meu querido Ericson Luna. Na próxima terça-feira, 19 de abril de 2011, completamos 4 anos sem Ericson. Saudades companheiro! Ele era o chato mais legal que jamais conheci. Achei legal recolocar o articulo na roda, pra ajudar na lembrança. Boa leitura!

Por Edilson Silva

Encontrava-o quase sempre nos bares da rua do Hospício ou no Mercado da Boa Vista, ambos no bairro da Boa Vista. Mais raramente em outras quebradas, como o bar Curupira, na UFRPE, ou nas imediações do antigo bar do Seu Rainha, na rua da Moeda.

Sempre que já estava embriagado, me recebia assim: "Meu Lênin de ébano!". Quando não estava tão embriagado, dizia simplesmente: "e aí companheiro?". Mas este segundo cumprimento era muito raro. O primeiro, absolutamente abundante, era sucedido por comentários ácidos, inteligentes, provocativos e por um grande sorriso sem dentes, com os olhos bem apertados. Uma simpatia, um tanto quanto exótica, mas uma simpatia.

Certa vez na Rua da Moeda, no Bairro do Recife, em um de nossos incontáveis e memoráveis papos, quando percebeu o aperreio do garçom do boteco com uns clientes inconvenientes, fez a desafiadora ligação da situação com o fato de o garçom sofrer de uma indisfarçável hidrocélis (doença do "ovão"). Na primeira oportunidade chamou o inocente e disparou: " tem que ter muito saco nessa profissão, né?" Fiquei entre o riso máximo e o contido, aguardando a reação do garçom, que após alguns segundos de introspecção para sacar o humor refinado e a ousadia da piada também não se agüentou e caiu na gargalhada, nos liberando para fazer o mesmo.

Sujeito indecifrável. Suas roupas sujas, esfarrapadas, seu corpo com a higiene a dever, poderiam anunciá-lo como mais um desafortunado das ruas, mas com ele não era assim. Aquilo era um disfarce.

Os que lhe conheciam um pouco poderiam defini-lo como poeta. Mas ao conhecê-lo um pouco mais saberiam que esta era uma definição que ele próprio não aceitava. Dizia-se simplesmente um homem capaz de poesia. E ao conhecer sua poesia verifica-se que ele era muito capaz dela.

Vagabundo? Marginal? De jeito nenhum! Suas concepções particulares sobre as relações dos centros com as periferias e margens da sociedade eram sólidas e não permitiam encaixá-lo nestes clichês. Sem falar na desenvoltura com que esgrimava, na teoria e na prática, em favor do ócio revolucionário enquanto fator indispensável para a elevação da condição humana.

Louco? Também não. Para tirar a dúvida, certa vez ele mesmo se auto-internou numa clínica psiquiátrica. Após algumas semanas internado e muitos exames e testes, comprovaram que ele tinha as faculdades mentais na mais perfeita ordem.

O futuro não lhe atraia. Não o futuro distante, mas o amanhã mesmo, o depois de hoje, ou a noite que cairia logo mais. Em "3 X Não", um de seus escritos, publicado no seu único livro, "Do moço e do bêbado", sentencia: "Não creia em mim. Não há futuro. Não me deixo pra depois".

Em "Do Tédio", outro escrito da sua única coletânea, mais um pouco de sua concepção de vida: "Se é pra morrer de tédio, que eu morra mais cedo".

Cedo ou tarde, o fato é que na última quinta-feira, 19 de abril, o corpo de Erickson Luna foi sepultado. Morreu vítima de graves problemas de saúde que vinham lhe incomodando há algum tempo.

Sentiremos saudades deste sujeito que já fazia parte da paisagem "natural" da Rua do Hospício. Uma escultura móvel, pensante, instigante.

Sujeito indecifrável. Não-poeta, não-louco, não-marginal, não-vagabundo, quase advogado, quase jornalista, quase engenheiro de pesca.

Para Erickson, seus poemas eram apenas registros, que carregavam consigo sentimentos e reflexões muito mais profundas. Talvez esteja aí a explicação do que ele realmente era: um poema. Com sua morte, então, foi-se apenas o registro. Ficaram os sentimentos, as reflexões e os ensinamentos mais profundos. Valeu seu registro, grande Erickson.

Edilson Silva é presidente do P-SOL/PE

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