quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Animus lucrandi descarado na política

Por Edilson Silva
Esta semana o Brasil foi solapado mais uma vez com a notícia vinda de Brasília sobre o aumento de 62% que os deputados deram a si mesmos. O aumento vai ladeira a baixo, por força de “gravidade”, passando pelas assembléias estaduais e chegando às câmaras municipais, pois estas têm nos salários do legislativo federal a referência legal. Alguma dúvida se esta referência será utilizada à risca?


O PSOL, através de seus parlamentares, posicionou-se claramente contra este aumento, por entender ser isto um despropósito. Nada de hipocrisia nisto. Poderia sim haver um reajuste recompondo a inflação do período da legislatura que se encerra, mas este aumento real é um escárnio. Trata-se, no entanto, de uma situação que vai se perpetuando, a meu ver, por conta principalmente de dois fatores que se combinam.


O primeiro fator é que os políticos da “manada”, ou seja, a grande maioria, estão realmente se lixando para a opinião pública. Eles sabem que já dominam a tecnologia de chegada até o poder pela via da representação, uma tecnologia que lhes permite “comprar” suas eleições. O verbo “comprar” chega também à “manada” da grande, média e pequena mídia, que em época de eleição entra pra valer no grande circo eleitoral, sem debater ou cobrar os responsáveis pelos graves problemas do país e pela crise ética que atravessamos.

O segundo fator é a expansão da idéia de que carreira política é uma carreira profissional empresarial, animada fundamentalmente pela busca do lucro material e pessoal. Quando falo expansão da idéia é porque este animus lucrandi sempre existiu, mas sempre foi meio contido, pois não é (ou não era, pelo menos) politicamente correto confundir a ética no trato com a coisa pública, portanto uma ética com um núcleo um tanto quanto sacerdotal, com uma outra ética, aquela empresarial, das relações mercantis, em que o lucro é não só lícito, como desejado e objetivo estratégico a ser alcançado.

É natural no mundo dos negócios privados admitir-se percentuais de corretagem sobre transações realizados, presentes de final de ano, brindes e outras artimanhas para azeitar os negócios. É a ética dos negócios privados. No setor público, nas funções públicas, que tratam com o dinheiro e o patrimônio públicos, não pode e não deve ser assim.


Quantas vezes já não ouvimos que tal prefeito administra um orçamento X e ganha menos que um executivo de uma empresa Y, com orçamento bem menor, e que, portanto, tal prefeito deveria ter um salário maior? São duas coisas distintas, mas que os políticos, em sua esmagadora maioria, querem tratar como iguais. Se querem ter salários de executivos do setor privado, se querem uma carreira profissional de tipo empresarial, não deveriam procurar o serviço público e os cargos eletivos do Estado.


Este aumento absurdo de salário dos políticos é apenas a ponta do iceberg que chega à superfície da sociedade. Por trás disto, no subterrâneo, está a consolidação gradual de uma ética mercantil que já preside, “por debaixo dos panos”, as relações no universo da política, nos debates e decisões sobre os orçamentos públicos, aquilo que o povão chama corriqueiramente de corrupção.

PS: Edilson Silva é presidente do PSOL-PE

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