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sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

E já é ruína

Raul Juste Lores, da Folha de São Paulo

SÃO PAULO - Nas grandes concentrações de usuários e traficantes de drogas em Baltimore (EUA), quadras esportivas foram estrategicamente instaladas e funcionam até à noite -nelas, os serviços sociais se aproximam de quem busca ajuda para sair dessa.
Em Bogotá, na Colômbia, usuários de crack e de heroína que se inscrevem em programas de desintoxicação têm direito a receber doses de seu vício com agentes de saúde. Ninguém abandona a dependência química da noite para o dia.
Em ambas as cidades, a ideia foi atrair os usuários e logo tratá-los. Aqui, as operações preferem dispersá-los. Longe da cracolândia, eles magicamente desapareceriam.
Na declaração "a USP não é a cracolândia", Fernando Haddad se equiparou à linha-dura tucana. Em 20 anos, malufistas, petistas e demotucanos permitiram que a degradação crescesse. Falta empenho para esse intrincado drama de saúde.
Investimento pesado e pressa mesmo, só para construir túneis, ampliar marginais e recapear ruas em ano eleitoral. E 2012 apenas começa.
A metros da cracolândia, o trágico incêndio na favela do Moinho e a implosão tabajara não foram capazes de derrubar o imponente prédio do antigo Moinho Matarazzo. Não soubemos o que fazer com ele, e uma multidão sem-teto se apropriou de um espaço nada seguro como abrigo.
Na Alemanha, a velha siderúrgica da Thyssen, em Duisburg, virou um parque inusitado, e suas paredes, muros de escalada. Altos fornos ganharam escorregadores. Árvores e areia ocupam o chão da usina.
Em Buenos Aires, armazéns e fábricas viraram hotéis, galerias de arte, escritórios e restaurantes. Desde 2010, um antigo mercado de peixes hospeda empresas de jovens. Relíquias industriais geram empregos.
Não sabemos dar teto a quem precisa nem aproveitar nosso escasso patrimônio. Apenas pensamos em remendos quando o entorno já apodreceu.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Desdentados nos EUA


Patrícia Campos Mello, na Folha de São Paulo de 04/01

Em maio de 2009, pouco antes de a GM declarar falência, estive em Detroit para escrever sobre a decadência da indústria automobilística e seus efeitos sobre a cidade. O cenário lembrava Nova Orleans pós-Katrina, embora Detroit não tivesse sido varrida por um furacão. 

Casas abandonadas por toda a parte. Algumas haviam sido queimadas, para não serem ocupadas por viciados em crack. E muita, muita gente sem dentes. Em todo canto, havia americanos desdentados, na maioria negros. Em plenos EUA, as pessoas não tinham dinheiro para consertar os dentes.

Em 2010, depois de passar quatro anos nos EUA, voltei ao Brasil. Uma das coisas que me espantaram foi a quantidade de anúncios, em revistas e no rádio, de implantes dentários em prestações. Depois do frango, do iogurte e da TV de tela plana, a classe C agora podia ter dentes, em módicas parcelas.

Os papéis se inverteram. Os EUA, a maior sociedade meritocrática do mundo, está cada vez mais desigual. Enquanto isso, o Brasil, país símbolo da imobilidade social, melhora.

Ainda temos uma das maiores desigualdades do mundo. O coeficiente de Gini -em que zero corresponde à igualdade perfeita e um refere-se à desigualdade total- está em 0,539 no Brasil, um dos piores do mundo. Mas, desde 1985, tivemos uma melhora de 10%.

Nos EUA, onde o índice está em 0,468, houve piora de 34% no período. Entre 1979 e 2006, a renda dos americanos de classe média teve aumento real de 21%. Os mais pobres tiveram alta na renda de apenas 11%. Já o 1% mais rico viu seu rendimento crescer 256%.

Mas a piora na distribuição de renda dos EUA não afeta apenas a classe média. A desigualdade está no cerne da crise financeira que eclodiu em 2008, como mostra Raghuram Rajan, ex-economista-chefe do FMI e "cassandra" de plantão, em seu livro "Fault Lines - How Hidden Fractures Still Threaten the World Economy". "A resposta política para o aumento da desigualdade foi expandir o crédito para as famílias", diz Rajan.

Em vez de investir em educação, o que demoraria anos para ter efeitos reais (e eleitorais), sucessivos governos americanos foram pela via mais fácil: compensar a queda de remuneração da classe média com crédito barato, facilitando hipotecas, mantendo taxas de juros baixíssimas, ou seja, possibilitando toda a farra de endividamento que foi combustível para a crise.

Os benefícios eram visíveis a curtíssimo prazo e a conta demorou para chegar. Mas quando chegou, quebrou o país.

Resta ver se a política de expansão de crédito e transferência de renda no Brasil não está também mascarando problemas mais profundos e vai apresentar uma conta salgada daqui a pouco.

Desastres: um grande negócio do Ministério da Integração


Por Edilson Silva

90% das verbas do Ministério da Integração Regional destinadas à prevenção de desastres naturais – leia-se enchentes e outras conseqüências das chuvas -, foram destinadas à Pernambuco em 2011, denunciou o jornal O Estado de São Paulo logo na abertura de 2012. Detalhe: o ministro é de Pernambuco, o Sr. Fernando Bezerra Coelho. O governador Eduardo Campos, mesmo diante da flagrante irregularidade, foi à imprensa defender seu indicado, e só fez apontar o dedo em outra direção, dizendo que as verbas foram liberadas pela presidenta Dilma, por conta das enchentes na Zona da Mata, que viraram um drama nacionalmente conhecido.

Pois bem, se assim o fosse, ainda não justificaria tamanha desproporção. O problema maior é que (pasmem!) a maior parte dos recursos destinados à Pernambuco nesta rubrica NÃO foram para a Zona da Mata. As 14 cidades mais devastadas nas enchentes de 2010 e 2011 receberam apenas R$ 1,2 milhão, enquanto Petrolina, cidade que é base eleitoral do ministro, recebeu nada menos que R$ 8,9 milhões, como nos conta hoje matéria do Jornal do Commércio. Outro detalhe: Petrolina fica no sertão, não faz nem fronteira com a Mata.

Somemos a isto o fato das obras da transposição do Rio São Francisco estarem paradas e exigindo aditivos para rever seu orçamento e que o responsável pela obra é o mesmo Fernando Bezerra Coelho. Agora peguemos estes fatos e coloquemos a mãe do governador, que é hoje ministra do TCU - e que chegou lá como todos sabemos -, como a responsável pela averiguação das reais necessidades de maior alocação de recursos públicos nas obras da transposição e vamos ter infinitos motivos para pedir a Deus que nos proteja dessa gente. Depois eu é quem sou o arengueiro.

Presidente do PSOL-PE
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terça-feira, 3 de janeiro de 2012

O poder do voto!

Neste vídeo, você vai conhecer um pouco como funciona a eleição proporcional no Brasil e porque um candidato se elege com os votos do outros e porque às vezes um candidato mais votado não consegue ser eleito, enquanto outro, com menos votos, consegue uma vaga parlamentar. Para não ser enrolado nas eleições, os eleitores precisam estar de olhos bem abertos! Confira!

2011 foi um bom ano para a esquerda mundial

Texto de Immanuel Wallerstein



Por qualquer ângulo, 2011 foi um bom ano para a esquerda mundial – seja qual for a abrangência da definição de cada um sobre a esquerda mundial.


A razão fundamental foi a condição econômica negativa, que atinge a maior parte do mundo. O desemprego, que era alto, cresceu ainda mais. A maioria dos governos enfrentou grandes dívidas e receita reduzida. A resposta deles foi tentar impor medidas de austeridade contra suas populações, ao mesmo tempo em que tentavam proteger os bancos.


O resultado disso foi uma revolta global daquilo que o movimento Occuppy Wall Street chama de "os 99%". Os alvos eram a excessiva polarização da riqueza, os governos corruptos, e a natureza essencialmente antidemocrática desses governos — tenham eles sistemas multipartidários ou não.

O Occuppy Wall Street, a Primavera Árabe e os Indignados não alcançaram tudo o que esperavam. Mas sim conseguiram alterar o discurso mundial, levando-o para longe dos mantras ideológicos do neoliberalismo — para temas como desigualdade, injustiça e descolonização. Pela primeira vez em muito tempo, pessoas comuns passaram a discutir a natureza do sistema no qual vivem. Já não o vêem como natural ou inevitável...

A questão para a esquerda mundial, agora, é como avançar e converter o sucesso do discurso inicial em transformação política. O problema pode ser exposto de maneira muito simples. Ainda que exista, em termos econômicos, um abismo claro e crescente entre um grupo muito pequeno (o 1%) e outro muito grande (os 99%), a divisão política não segue o mesmo padrão. Em todo o mundo, as forças do centro-direita ainda comandam aproximadamente metade da população mundial, ou pelo menos daqueles que são politicamente ativos de alguma forma.


Portanto, para transformar o mundo, a esquerda mundial precisará de um grau de unidade política que ainda não tem. Há profundos desacordos tanto sobre a objetivos de longo prazo quanto sobre táticas a curto prazo. Não é que esses problemas não estejam sendo debatidos. Ao contrário, são discutidos acaloradamente, e pouco progresso tem sido feito para superar essas divisões.
Essas discordâncias são antigas. Isso não as torna fáceis de resolver. Existem duas grandes divisões. A primeira é em relação a eleições. Não existem duas, mas três posições a respeito. 

Existe um grupo que suspeita profundamente de eleições, argumentando que participar delas não é apenas politicamente ineficaz, mas reforça a legitimidade do sistema mundial existente.
Os outros acham que é crucial participar de processos eleitorais. Mas esse grupo está dividido em dois. Por um lado, existem aqueles que afirmam ser pragmáticos. Eles querem trabalhar de dentro – dentro dos maiores partidos de centro-esquerda quando existe um sistema multipartidário funcional, ou dentro do partido único quando a alternância parlamentar não é permitida.


E existem, é claro, os que condenam essa política de escolher o mal menor. Eles insistem que não existe diferença significativa entre os principais partidos e são a favor de votar em algum que esteja "genuinamente" na esquerda.

Todos estamos familiarizados com esse debate e já ouvimos os argumentos várias vezes. No entanto, está claro, pelo menos para mim, que se não houver algum acordo entre esses três grupos em relação às táticas eleitorais, a esquerda mundial não tem muita chance de prevalecer a curto ou a longo prazo.

Acredito que exista uma forma de reconciliação. Ela consiste em fazer uma distinção entre as táticas de curto prazo e as estratégias a longo prazo. Concordo totalmente com aqueles que argumentam que obter poder estatal é irrelevante para as transformações de longo prazo do sistema mundial – e possivelmente as prejudica. Como uma estratégia de transformação, foi tentada diversas vezes e falhou.

Isso não significa que participar nas eleições seja uma perda de tempo. É preciso considerar que uma grande parte dos 99% está sofrendo no curto prazo. Esse sofrimento é sua preocupação principal. Tentam sobreviver, e ajudar suas famílias e amigos a sobreviver. Se pensarmos nos governos não como agente potencial de transformação social, mas como estruturas que podem afetar o sofrimento a curto prazo, por meio de decisões políticas imediatas, então a esquerda mundial se verá obrigada a fazer o que puder para conquistar medidas capazes de minimizar a dor.

Agir para minimizar a dor exige participação eleitoral. E o debate entre os que propõem o menor mal e os que propõem apoiar partidos genuinamente de esquerda? Isso torna-se uma decisão de tática local, que varia enormemente de acordo com vários fatores: o tamanho do país, estrutura política formal, demografia, posição geopolítica, história política. Não há uma resposta padrão. E a resposta para 2012 também não irá necessariamente servir para 2014 ou 2016. Não é, pelo menos para mim, um debate de princípios. Diz respeito, muito mais, à situação tática de cada país.

O segundo debate fundamental presente na esquerda é entre o desenvolvimentismo e o que pode ser chamado de prioridade na mudança da civilização. Podemos observar esse debate em muitas partes do mundo. Ele está presente na América Latina, nos debates fervorosos entre os governos de esquerda e os movimentos indígenas – por exemplo na Bolívia, no Equador, na Venezuela. Também pode ser acompanhado na América do Norte e na Europa, nos debates entre ambientalistas/verdes e os sindicatos, que priorizam manutenção dos empregos já existentes e a expansão da oferta de emprego.

Por um lado, a opção desenvolvimentista, apoiada por governos de esquerda ou por sindicatos, sustenta que sem crescimento econômico, não é possível enfrentar as desigualdades econômicos do mundo de hoje – tanto as que existem dentro de cada país quanto as internacionais. Esse grupo acusa o oponente de apoiar, pelo menos objetivamente e talvez subjetivamente, os interesses das forças de direita.

Os que apoiam a opção anti-desenvolvimentista dizem que o foco em crescimento econômico está errado em dois aspectos. É uma política que leva adiante as piores características do sistema capitalista. E é uma política que causa danos irreparáveis – sociais e ambientais.
Essa divisão parece ainda mais apaixonada, se é que é possível, que a divergência sobre a participação eleitoral. A única forma de resolver isso é com compromissos, diferentes em cada caso. Para fazer com que isso seja possível, cada grupo precisam acreditar na boa fé e nas credenciais de esquerda do outro. Isso não será fácil.

Essas diferenças poderão ser superadas nos próximos cinco ou dez anos? Não tenho certeza. Mas se não forem, não acredito que a esquerda mundial possa ganhar, nos próximos vinte ou quarenta anos, a batalha fundamental. Nela se definirá que tipo de sistema sucederá o capitalismo, quando este sistema entrar definitivamente em colapso.


Immanuel Maurice Wallerstein (Nova Iorque28 de Setembro de 1930) é um sociólogo estadunidense, mais conhecido pela sua contribuição fundadora para a teoria do sistema-mundo. Seus comentários bimensais sobre questões globais são distribuídos pela Agence Global para publicações como Le Monde diplomatique e The Nation.[1] No Brasil, seus artigos são publicados na revista Fórum e na revista virtual Outras Palavras(Wikipedia)

Ideias e acontecimentos

Por wladimir safatle, na folha de são paulo de 03/01 


Em "Antropologia do Ponto de Vista Pragmático", o filósofo Immanuel Kant apresenta sua considerações a respeito do caráter dos povos. Lá encontramos páginas sobre os ingleses, alemães, franceses, espanhóis, turcos, entre outras nacionalidades.

Mas há nisso tudo um detalhe intrigante. Kant nunca saíra de sua cidade, Köninsberg (hoje, Kaliningrado). Não por outra razão, as tais páginas são um conjunto bisonho de lugares-comuns.
Esta pequena anedota diz muito a respeito de uma certa maneira de pensar que consiste em acreditar que a experiência nunca fornecerá nada capaz de reorientar uma ideia clara. O acesso à experiência acumulada em livros e relatos já forneceria o embate necessário para nos orientarmos no pensamento.

Qualquer coisa que eu, enquanto particularidade, experimente seria parcial, limitado e restrito a um contexto. Por essa razão, seu valor seria muito frágil.

Quase 200 anos depois, outro filósofo, Michel Foucault, resolveu fazer um caminho inverso. "Há muitos acontecimentos do mundo que forçam o pensamento a se reorientar", dirá Foucault. "Devemos ir lá onde tais acontecimentos estão."

E com tal ideia na cabeça, o filósofo francês foi ao Irã acompanhar de perto a revolução que acabou por levar o aiatolá Khomeini ao poder. Vários artigos seus sobre tal processo apareceram no jornal "Corriere dela Sera".

As análises de Foucault não passaram à posteridade como o melhor exemplo de acuidade. De fato, ele compreendeu posteriormente os riscos nos quais a revolução tinha entrado, mas espera-se de um filósofo que ele consiga apreender os riscos antes deles estarem evidentes a todos.
Se a força da ideia, assim como a crença de que não há nada de novo sob o sol, pode nos cegar, o mesmo vale para o entusiasmo pelo acontecimento.

Entre estes dois polos, encontramos uma peculiar afirmação feita por um terceiro filósofo, Theodor Adorno. Logo após a audição de uma peça de John Cage, "Concerto para Piano", Adorno volta para casa e escreve: "Eu não sei exatamente o que pensar".

Diante de um acontecimento tal como a obra de Cage, Adorno reconhecia que o melhor a fazer era dizer: "Eu não sei o que isto significa, só sei que precisarei de tempo para o pensamento voltar a se orientar". Abdicar deste tempo devido ao medo diante da angústia da indecisão seria o pior de todos os erros.

Este é o erro que cometemos com mais facilidade. Ele é o que mais fere. Às vezes, a indecisão prolongada é o tempo que o pensamento exige para se reconstruir diante dos acontecimentos.


VLADIMIR SAFATLE escreve às terças-feiras na FSP.