domingo, 5 de agosto de 2012

Uma análise necessária em torno da greve na polícia civil

Por Edilson Silva


Os policiais civis de Pernambuco estão em greve após mais de cinco meses de tentativas de negociação com o governo Eduardo Campos. Chegaram ao seu limite. Se formos remontar a luta destes sob o atual governo, vamos há vários anos de um processo de negociação permanente na busca de uma valorização profissional que nunca vem.

Pelo que ouvimos e conversamos com os grevistas e membros do sindicato, o nó principal da negociação está no não pagamento da gratificação de função policial de forma isonômica com outros quadros da carreira da Polícia Civil de Pernambuco. O governo trata de forma diferente quadros da mesma categoria, no seu já conhecido método de cooptar uma pequena parcela de superiores e apostar no assédio moral para enquadrar as maiorias legitimamente insatisfeitas.

Chamo de já conhecido método por que também na Polícia Militar o governador opta por agradar exclusivamente a alta cúpula da corporação e também apostar no assédio moral e processos disciplinares para sufocar o grito das maiorias descontentes. Vários dirigentes de associações da Polícia Militar estão respondendo processos internos baseados no AI 5 (Ato Institucional nº 5), do  nefasto período militar, por exigirem que o governo cumpra simplesmente a Lei.

Como acompanho com certa proximidade a situação dos trabalhadores na segurança pública em nosso Estado, sabemos que as questões de sobrevivência imediata sempre falam mais alto, no caso o arrocho salarial. Mas sabemos também que estes lutam muito – e isto sempre está em suas pautas de reivindicações, para ter suas condições de trabalho melhoradas. Isto significa melhores equipamentos de proteção, viaturas em condições, jornadas de trabalho compatíveis com a função, etc. Ou seja, lutam para que a sociedade tenha um serviço público de segurança melhor.

Esta situação toda acontece sob um governo que pretende mostrar ao Brasil um modelo de gestão com pompa de paradigma na segurança pública, o Pacto Pela Vida. Nada mais contraditório. O governo “vende” os números supostamente positivos pelo mundo afora, leva os louros, mas não valoriza exatamente os operadores diretos da segurança pública. A sociedade quer e precisa de serviço público com referenciais de produtividade e qualidade bastante nítidos, mas é preciso dar aos servidores condições dignas de trabalho.

Estamos assistindo a um processo perigoso sendo construído num segmento muito importante e vital do serviço público, a segurança pública. Uma cultura de assédio moral e truculência vai se forjando em meio ao segmento. Tamanha é a pressão sobre esses trabalhadores que estamos vendo o suicídio de profissionais tornar-se algo bastante possível de acontecer, alguns em situações bastante estranhas, como um comandante que teria se suicidado exatamente em meio a uma reunião de avaliação do Pacto Pela Vida.

Esta semana os policiais civis foram ameaçados de não poder se manifestar politicamente em suas demandas sindicais. Provocado pelo governo, um magistrado determinou que a Polícia Militar reprimisse a manifestação democrática, legal e saudável dos policiais civis em greve. Este clima de criminalização das atividades político-sindicais e de instalação de um clima de terror na gestão da segurança pública, mais cedo ou mais tarde poderá transbordar de forma dramática para o seio da sociedade.

Ninguém precisa e nem quer homens e mulheres armados, estressados, desmoralizados, cuidando da segurança de todos. Este ambiente de coronelismo não combina mais com Pernambuco e muito menos com Recife, e é por isso que a sociedade deve apoiar a atual greve dos policiais civis e também as manifestações dos policiais militares. Não se trata apenas de lutas salariais, mas de qualidade no serviço público, democracia e defesa do Estado democrático de direito.

Presidente do PSOL-PE

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