quinta-feira, 26 de abril de 2012

Festa da Lavadeira e os paraísos artificiais da elite mesquinha


Por Edilson Silva
Este ano a tradicional Festa da Lavadeira não acontecerá na praia do Paiva. Após 26 edições anuais, sempre no dia 1º de maio, um dos eventos mais importantes da arte e da cultura popular do nordeste foi transferido para a cidade do Recife. A Festa, que assumiu com o tempo um forte caráter alternativo e religioso, forjando naquele território uma atmosfera sagrada, não conseguiu sobreviver ali, diante da forte especulação imobiliária. 

Com a criação do empreendimento Reserva do Paiva, grupos empresariais poderosos sufocaram durante mais de 10 anos a realização da manifestação, que neste período funcionou mais como um ritual de resistência. Sou testemunha da luta desigual e covarde à qual foi submetida a organização da Festa. Em dezembro de 2010, contudo, diante da forte resistência popular em defesa da Lavadeira, a prefeitura do Cabo fez aprovar na Câmara Municipal uma lei impondo fortes restrições à circulação de pessoas e infra-estrutura para a realização de eventos na Reserva do Paiva, proibindo indiretamente a realização da Festa da Lavadeira. Criou-se ali uma Reserva Ambiental. 

Nesta situação, em 2011 só foi possível a sua realização a partir de uma forte mobilização e assembléia popular constituída para fazer valer a vontade legítima do povo. Foi conseguido um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) junto ao Ministério Público de Pernambuco e a organização pode colocar à disposição dos freqüentadores uma mínima estrutura com toldos, venda de água, banheiros e equipamentos de som.
 

A argumentação da prefeitura e dos empreendedores era que a Reserva Ambiental não permitia aquele tipo de movimentação na área, mesmo sabendo que o Relatório de Impacto Ambiental e a concessão pública para a realização do empreendimento garantiam a área para a realização da Festa da Lavadeira. Pois bem, foi tanta a pressão que neste ano a organização da Festa trouxe-a para Recife. Se assim não o fizesse, a impressão que tenho é que talvez esta não se realizasse.
 

Contudo, para nossa surpresa e indignação, exatamente no ano em que pela primeira vez a Festa não acontecerá no Paiva, somos brindados com a notícia que uma grande Rave vai rolar na praia do Paiva. Não será no dia 1º de maio, pois aí já seria demais, mas no dia 28 de abril. A Festa Eletrônica, com ingressos caríssimos e a poucos metros da área da Lavadeira, tem o sugestivo nome de “Paraísos Artificiais”, em alusão ao lançamento do filme de mesmo nome, gravado também na praia do Paiva.
 

Como freqüentador da Festa da Lavadeira, como parte do movimento negro, como admirador e defensor da nossa arte e de nossos folguedos, como ativista político que se sente em favor das causas populares, estive muito próximo desta resistência no último período e causou-me particular indignação esta situação.
 

Estivemos à frente de conversas com o Ministério Público, com o Governo do Estado, com a Assembleia Legislativa, com a Prefeitura do Cabo, com a Câmara de Vereadores do Cabo e várias outras instituições nesta batalha em defesa da Lavadeira. E hoje, diante desta provocação, está muito claro que a Lei Municipal criada foi sob medida para a Festa da Lavadeira; trata-se de um apartheid social, em pleno século XXI e numa das maiores regiões metropolitanas do país.
 

A “Reserva Ambiental do Paiva” é só para isso: para as elites curtirem seus paraísos artificiais, longe dos sons de atabaques, alfaias e da alegria do povo em festa. Um paraíso natural e democrático foi solenemente privatizado e elitizado. Fica aqui meu protesto e a certeza que esta luta ainda não terminou!

Presidente do PSOL-PE
 

Um comentário:

  1. Na realidade acho que o Eduardo Melo ganhou uma nota preta pra ir ao Marco Zero!

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