sábado, 28 de janeiro de 2012

Anarquismo, anti-partidarismo e democracia


Por Edilson Silva

As mobilizações contra o aumento das passagens que acontecem em Recife nestes dias têm trazido para o debate político da organização destas lutas um tema muito importante: a questão da democracia, da autonomia e do protagonismo desses/nesses movimentos populares.

Setores anarquistas organizados (sic) e também setores populares autônomos
insistem na não participação de partidos e políticos nas mobilizações. Hostilizam bandeiras, camisetas e figuras públicas identificadas com disputas eleitorais. Eu mesmo tenho sido vítima destas hostilizações.

Longe de achar que esta postura refratária a partidos e políticos é algo negativo em essência, acho compreensível e até salutar em certa medida. A sociedade que se dispõe a manifestar-se politicamente nas ruas, não está mais disposta a ser usada como massa de manobra da velha política, de partidos e políticos sem escrúpulos, que parasitam as mobilizações, com o único intuito de surfar nas mobilizações populares.

Cabe aos partidos e figuras públicas que têm compromisso real com as lutas populares, suportar as hostilizações e, com a autoridade moral e política que detém, fincar suas bandeiras nestas manifestações e demarcar seu espaço, como o PSOL, PSTU e PCB, por exemplo, têm feito, estabelecendo as diferenciações que existem no universo dos partidos e dos políticos. Assim como nem todo anarquista é porra-louca, nem todo partido ou liderança partidária são pilantras.

Gritos com palavras de ordem hostilizando partidos e lideranças político-partidárias nestas mobilizações não são, portanto, de todo mal. Mostram que a população está exigente; que organizações partidárias para estarem enquanto tal nestes processos precisam passar por um rígido processo de afirmação. A ação constrangedora funciona como uma espécie de anticorpo do movimento. Partidos e figuras públicas destes partidos nas mobilizações precisam passar por um rígido filtro. Tem um lado positivo.

Os limites para esta convivência são o respeito à livre expressão em base a compromissos claros nos processos de mobilização e na sinceridade e lealdade nas relações políticas – o que não significa se calar diante das divergências políticas. Na medida em que objetivos claros são traçados, os aliados também vão se alinhando. Ficou claro em menos de uma semana de mobilizações que entidades dirigidas pelo PC do B, por exemplo, não tinham identidade com a luta. Na primeira oportunidade sentaram no colo do governador. A prática, mais uma vez, é o critério da essência da verdade.

A relação de todos os setores em luta neste momento, portanto, é dialética. A síntese deste processo tem sido mobilizações constantes; relações cautelosas, mas essencialmente de avanço da luta popular. O que não podemos perder é o respeito à diversidade política. Quem é de partido, que se manifeste; quem é apartidário, também se manifeste; e quem é anti-partidário, também se manifeste, mas sempre, todos, respeitando o direito do outro de se manifestar. A liberdade e a democracia são assim.

Presidente PSOL-PE e manifestante contra o aumento das passagens e em defesa de um transporte coletivo e público de qualidade.

5 comentários:

  1. Um texto muitissimo bem elaborado que serve pra refexão aos movimentos populares no tocante as solicitações de não se levar a protestos itens que relacionem o ato a partidos/siglas/legendas politicas!

    Acredito sim que é possivel unir os dois lados com o intuito de fortalecer o movimento. Contudo, como citado no texto, é necessario um filtro para que assim não sejamos mais uma vez manipulados por aqueles que só tem como interesse lucrar com os atos públicos!

    Sabendo que "O Mal é produto da ignorância" não devemos permitir que a segregação parta do nosso lado, pois juntos seremos sempre mais fortes!

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  2. A energia pulsante das revoltas populares originadas no mundo árabe, mas que logo extrapolou as fronteiras geográficas ganhando o mundo, parece ter encorajado muitos povos em situações semelhantes de exploração à articularem-se em movimentos populares contra seus opressores. Da mesma forma, Recife tem sediado estes levantes no que diz respeito ao "Mubarak de olho azul". Transvestido de um líder carismático e eleito democraticamente com aprovação record, exatamente como o foi Adolf Hitler em 1933, Eduardo Campos parece não estar disposto à contestações da população. Porém a teimosia racional aliada ao ímpeto revolucionário da massa que tem ocupado ruas do centro da capital, desafia frontalmente o poder oligárquico do coronel Eduardo. Nesse sentido, o movimento popular é exatamente como o povo pernambucano, diversificado e rico, acomodando atrás de suas faixas, anarquistas, partidários, estudantes, professores, alunos e trabalhadores em geral. Assim como o levante não é partidário também não é anarquista. O povo está unido contra um inimigo único e poderoso. Destituídos de qualquer vício etnocêntrico, devemos nos abraçar na luta contra o ditador, respeitando cada um de nossos rebeldes que de forma louvável decidem ingressar nas fileiras populares. Nosso inimigo não está entre nós, ele está no poder!

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  3. Respostas
    1. Eu participei de um protesto contra o aumento das passagens de onibus no ano passado, no qual, você inclusive estava tomando a frente no carro de som do PSOL... vi o psol dividir as pessoas do protesto, tudo isso, porque tinha outro carro do PSTU e vocês não queriam sair juntos com ele. Vi segurarem as pessoas de protestar, com a desculpa de que estavam recebendo um grupo na prefeitura e que deviamos esperar pra saber o que aconteceria, no final não protestamos e não conseguimos nada... Ja o psol, ou alguns políticos, eu não sei. O que eu aprendi com isso? Protesto em que partido toma a frente não é protesto, é campanha política.

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    2. Não é verdade. Em 2011 eu só fui uma vez às manifestações e fiquei na beirada! Conta outra, carnevisteon!

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