Páginas

sábado, 14 de janeiro de 2012

Candidata do PSOL ataca PT e Jungmann


RUMO ÀS ELEIÇÕES Em entrevista à Rádio JC/CBN, Noélia Brito diz que o PT pratica um estelionato eleitoral. Sobre Jungmann, afirma que ele não pensou grande quando ministro

Pré-candidata à Prefeitura do Recife pelo PSOL, Noélia Brito fez ataques ao PT e ao prefeiturável Raul Jungmann (PPS), ontem, em entrevista à Rádio JC/CBN. Comrelação ao Partido dos Trabalhadores, Noélia afirmou que a legenda é um estelionato, quando questionada sobre a gestão petista no município. Acho uma vergonha o PT ter enganado a população. O que me revolta no PT é o estelionato. Com os outros partidos, você já sabia o que esperar deles. Agora o PT enganou a população, declarou. Já sobre Jungmann, ela disse que ele não fez nada quando era ministro do Desenvolvimento Agrário no governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), de 1996 a 2002. Quando era ministro, ele não pensou grande, completou, se referindo ao Pense grande utilizado pelo pré-candidato em outras eleições.

Noélia Brito alegou que o PSOL não pretende formar alianças com a velha política, fazendo alusão às principais siglas do cenário político pernambucano, como PMDB, PPS, PSDB e PT. A nossa aliança é com o povo. O PSOL age dentro da realidade do povo. Não fica só na teoria, enfatizou. De acordo com ela, o partido é o representante mais autêntico na nova política, da transparência, e aposta nas redes sociais para estreitar o relacionamento com os cidadãos.

Sob o ponto de vista administrativo, Noélia criticou a gestão petista dos últimos dez anos e citou o déficit habitacional, os problemas na educação, o caos no trânsito e a má conservação das calçadas como os principais males sociais da capital pernambucana. Caso seja eleita, sua primeira medida, será instituir uma comissão geral de auditoria na prefeitura, a fim de monitorar os gastos públicos. Criarei auditoria na folha de pagamento, na folha de contrato, em tudo. O que se gasta ali (na PCR) não corresponde aos serviços que a população está recebendo, disse.

Sobre o Orçamento Participativo (OP), uma das principais bandeiras do PT, Noélia diz que é uma ficção. Vamos propor uma participação pela internet. Nenhuma grande obra do Recife foi votada pela população neste orçamento, concluiu.

PERFIL

Noélia Brito nasceu em 13 de dezembro de 1968, em Fortaleza. Formou-se com 22 anos em direito pela Universidade Federal do Ceará (UFCE). Passou no concurso para a Procuradoria do Recife há 16 anos, onde mora desde então. Eu sou procuradora do povo, e não de gestão. Nasci no dia do AI-5, por isso tenho o espírito libertário, afirmou.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

FUNASE: de quem é esta obra?


Por Edilson Silva

Por mais que as “rebeliões” nestas unidades da FUNASE ou similares se repitam é praticamente impossível aceitarmos estes fatos como normais em nosso cotidiano. Será sempre chocante e inaceitável que nas dependências de uma instituição do Estado seres humanos sob sua tutela sejam assassinados, incinerados e tenham suas cabeças decepadas, como vimos esta semana. Quem são os responsáveis por isto¿

Estão espalhadas pelo estado um incontável número de placas enormes de propaganda do governo estadual afirmando que Pernambuco está em obras. O governador quer sua assinatura embaixo de todas as obras que são vistas pela população como positivas. Até Suape, uma construção de décadas, creditam à atual gestão. Pois bem, e a FUNASE e suas rebeliões com requintes medievais, são obras de quem, caro governador¿

Não é coincidência que a unidade mais problemática da FUNASE continue sendo a do Cabo de Santo Agostinho, cidade que reflete como poucas os impactos do modo eduardista de “desenvolvimento”. Aquela unidade reflete exatamente o divórcio que existe em nosso estado entre crescimento econômico e responsabilidade social e ambiental. O que assistimos em Pernambuco é um espetáculo de crescimento econômico sob a presidência da lógica liberal mais perversa: o importante é dinheiro circulando, o resto o deus mercado se encarrega. O problema é que este mercado está bem mais próximo é de um diabo indomável.

O crescimento do PIB do Estado e na região de Suape, onde se localiza o município do Cabo de Santo Agostinho, não consegue se refletir socialmente nos jovens em situação de risco. E não consegue por que também não se reflete em políticas públicas globais, efetivas e eficazes para a nossa juventude. O governador Eduardo Campos deveria se envergonhar de ter sob seu governo, com Pernambuco vivendo seu “melhor momento”, como ele gosta de dizer, tragédias sociais como esta acontecendo. A pergunta que fica é a seguinte: e quando Pernambuco não estiver em seu melhor momento¿

O Fórum de Defesa das Crianças e Adolescentes de Pernambuco, assim como outras entidades, vem há tempos sugerindo e exigindo providências. As soluções não vêm não é por falta de diagnósticos e propostas e nem de recursos (afinal Pernambuco vive seu melhor momento!). O SINASE, Sistema Nacional de Atendimento Sócio Educativo, define e orienta um conjunto de procedimentos que, se colocados minimamente em prática, já iniciaria uma inflexão positiva neste quadro caótico. Mas, infelizmente, o tema da responsabilidade social não está na pauta de nosso governo.

Presidente do PSOL-PE
twitter.com/EdilsonPSOL
edilsonpsol.blogspot.com
facebook.com/EdilsonPSOL

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Hobsbawm: protagonismo da classe média marca revoltas de 2011

Andrew Whitehead, do Serviço Mundial da BBC


"A classe média foi a grande protagonista e força motriz das revoltas populares e ocupações que marcaram o ano de 2011. Esta é a opinião de Eric Hobsbawm, um dos mais importantes historiadores em atividade."

Em entrevista à BBC, o historiador marxista nascido no Egito, mas radicado na Grã-Bretanha, afirma ainda que a classe operária e a esquerda tradicional - da qual ele ainda é um dos principais expoentes - estiveram à margem das grandes mobilizações populares que ocorreram ao longo deste ano.

''As mais eficazes mobilizações populares são aquelas que começam a partir da nova classe média modernizada e, particularmente, a partir de um enorme corpo estudantil. Elas são mais eficazes em países em que, demograficamente, jovens homens e mulheres constituem uma parcela da população maior do que a que constituem na Europa'', diz, em referência especial à Primavera Árabe, um movimento que despertou seu fascínio.

''Foi uma alegria imensa descobrir que, mais uma vez, é possível que pessoas possam ir às ruas e protestar, derrubar governos'', afirma Hobsbawm, cujo título do mais recente livro, Como Mudar o Mundo, reflete sua contínua paixão pela política e pelos ideais de transformação social que defendeu ao longo de toda a vida e que segue abraçando aos 94 anos de idade.

As ausências da esquerda tradicional e da classe operária nesses movimentos, segundo ele, se devem a fatores históricos inevitáveis.
''A esquerda tradicional foi moldada para uma sociedade que não existe mais ou que está saindo do mercado. Ela acreditava fortemente no trabalho operário em massa como o sendo o veículo do futuro. Mas nós fomos desindustrializados, portanto, isso não é mais possível'', diz Hobsbawm.

Hobsbawm comenta que as diversas ocupações realizadas em diferentes cidades do mundo ao longo de 2011 não são movimentos de massa no sentido clássico.
''As ocupações na maior parte dos casos não foram protestos de massa, não foram os 99% (como os líderes dos movimentos de ocupação se autodenominam), mas foram os famosos 'exércitos postiços', formados por estudantes e integrantes da contracultura. Por vezes, eles encontraram ecos na opinião pública. Em se tratando das ocupações anti-Wall Street e anticapitalistas foi claramente esse o caso.''


À SOMBRA DAS REVOLUÇÕES

Hobsbawm passou sua vida à sombra - ou ao brilho - das revoluções.
Ele nasceu apenas meses após a revolução de 1917 e foi comunista por quase toda a sua vida adulta, bem como um autor e pensador influente e inovador.
Ele tem sido um historiador de revoluções e, por vezes, um entusiasta de mudanças revolucionárias.

O historiador enxerga semelhanças entre 2011 e 1848, o chamado ''ano das revoluções'', na Europa, quando ocorreram uma série de insurreições na França, Alemanha, Itália e Áustria e quando foi publicado um livro crucial na formação de Hobsbawm, O Manifesto Comunista, de Marx e Engels.

Hobsbawm afirma que as insurreições que sacudiram o mundo árabe e que promoveram a derrubada dos regimes da Tunísia, Egito, Líbia e Iêmen, ''me lembram 1848, uma outra revolução que foi tida como sendo auto-impulsionada, que começou em um país (a França) e depois se espalhou pelo continente em um curto espaço de tempo''.

Historiador diz que revoluções no mundo árabe tomaram rumo inesperado. Para aqueles que um dia saudaram a insurreição egípcia, mas que se preocupam com os rumos tomados pela revolução no país, Hobsbawm oferece algumas palavras de consolo.

''Dois anos depois de 1848, pareceu que alguma coisa havia falhado. No longo prazo, não falhou. Foi feito um número considerável de avanços progressistas. Por isso, foi um fracasso momentâneo, mas sucesso parcial de longo prazo - mas não mais em forma de revolução''.

Mas, com a possível exceção da Tunísia, o historiador não vê perspectivas de que os países árabes adotem democracias liberais ao estilo das europeias.
''Estamos em meio a uma revolução, mas não se trata da mesma revolução. O que as une é um sentimento comum de descontentamento e a existência de forças comuns mobilizáveis - uma classe média modernizadora, particularmente, uma classe média jovem e estudantil e, é claro, a tecnologia, que hoje em dia torna muito mais fácil organizar protestos.''

sábado, 7 de janeiro de 2012

A fala do trono

Por Michel Zaidan Filho, publicado no Blog de Jamildo


Sentado na confortável poltrona de couro, da sala de monitoramento do Palácio das Princesas, o governador Eduardo Acioly Campos, filho do escritor Maximiliano de Campos, sobrinho do sociólogo Renato Carneiro Campos e neto do ex-governador do estado, Miguel Arraes de Alencar, concedeu magnanimamente uma entrevista de três horas aos repórteres dos principais jornais de Pernambuco. 

O que chama a atenção, antes de tudo, é a sem-cerimônia que caracterizou a conversa do governante com os representantes dos três jornais. 

O gestor parecia estar muito a vontade, apesar das reiteradas batidas de mão na mesa, das mãos crispadas e do pé revirado, como os jornais fizeram questão de mostrar. 

Eduardo Campos sempre foi uma pessoa tensa e fumava compulsivamente, inclusive em ambientes fechados. 

Também sempre pareceu não ter critério alimentar nenhum, ao contrário do ex-prefeito João Paulo da Silva. 

A entrevista foi reveladora de vários pontos que talvez o próprio governador não tenha se dado conta: família, oposição, nível da atividade econômica do Estado, relacionamento com o governo federal, a sua base de sustentação a nível estadual e federal, suas relações com o PSDB, o PSD, o PT e outros aliados, o seu modelo de gestão da educação, saúde, segurança, a prefeitura do Recife, suas pretensões políticas para 2014 etc.

Baseado em pesquisas de opinião que lhe dão 90% de aprovação popular, Eduardo Campos exibe uma autoconfiança ilimitada e esnoba a oposição, afirmando que ela corre o risco de falar para 6% da população. 

E que o estado vive dias de exuberância econômica, com a vinda de inúmeras empresas para Pernambuco. 

Que fez os maiores investimentos em Educação e Saúde, da história do estado. Que se tornou um interlocutor importante para a reeleição da presidente Dilma, sua prioridade política nacional, apesar das boas relações com Gilberto Kassab, Aécio Neves, Beto Richa e outro

O que o governador Eduardo Campos não deixou claro ou explicitou suficientemente foi a natureza das parcerias, o modelo administrativo, os custos ambientais e fiscais, o grau de patrimonialismo ou familismo que tem caracterizado a sua gestão. 

O principal mandatário de Pernambuco fêz referência a Fundação Roberto Marinho e ao Instituto Ayrton Senna, quando fala da educação. 

Omite a inovação administrativa que transferiu a saúde para área privada, nem diz que a gestão dos novos presídios é particular, sendo o que o primeiro a ser inaugurado – o de Itaquitinga- já sofreu multas da CPRH por irregularidades ambientais em sua fase inicial de implantação. 

Mas grave é, contudo, a criminosa política de atrair investimentos ao custo de concessões ambientais e fiscais, não reveladas à sociedade ou aos contribuintes ou às entidades submunicipais que participam da partilha tributária. 

É o caso de se perguntar se o nosso gestor estadual ganhou carta branca para ignorar a lei e conceder favores ou cessão de direitos a particulares, sob a alegação de política de geração de empregos e renda. 

É oportuno lembrar que Eduardo Campos se elegeu prometendo combater a “guerra fiscal”, lutar por um novo pacto federativo e uma ampla e justa reforma tributária.

Estranho também é o seu estilo administrativo, caracterizado por um misto de gerencialismo e familismo e inúmeros auditores do Tribunal de Contas, que fazem as vezes de secretários de Governo. 

Tudo amparado por uma pletora de estatísticas e aparelhos de alta tecnologia de informação. É o caso de afirmar: tanto tecnologia a serviço de ideias, costumes e modos políticos tão antigos... como as oligarquias de Pernambuco.

Interessante é como governador situa a sua obra administrativa e sua obra como articulador político (presidente do PSB e articulador dos apoios a presidente Dilma no nordeste). 

A impressão que fica é que Eduardo Campos tem uma visão meramente instrumental e estratégica da gestão. A sua preocupação não é tanto a qualidade de vida ou a melhoria social da população do estado, mas como transformar isso num ativo de alta especificidade para atuar no processo sucessório estadual e federal. 

E aí se revela claramente a natureza de suas alianças políticas: amplitude, diversidade, clientelismo, fisiologismo, adesismo, utilitarismo – desde que tudo isso possa servir de meio, instrumento, moeda para barganhar nos grandes acordos políticos nacionais e estaduais. 

Nesta arte, o neto superou com certeza o avô, que fixava limites ou princípios para o seu pragmatismo. 

Se Eduardo Campos quer ser alguma coisa (presidente, vice-presidente, ministro, senador etc.) ele não só não dirá, como subordinará toda a sua atividade política a esse objetivo. 

É o seu estilo, a sua maneira de atuar.
 
Quem é Michel Zaidan Filho

Possui graduação em Filosofia pela Universidade Católica de Pernambuco (1974), mestrado em História pela Universidade Estadual de Campinas (1982) e doutorado em História Social pela Universidade de São Paulo (1986). Atualmente é Professor-Adjunto da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Tem experiência na área de História e Ciências Sociais, com ênfase em Teoria e Filosofia da História e Sociologia da Juventude, atuando principalmente nos seguintes temas: Juventude; Comunismo, Política, Brasil, Democracia e Política.

Melhorar condições de moradia é um modo de distribuir renda

População pobre depende de políticas públicas para ter habitação de qualidade
KAZUO NAKANO Publicado na Folha de São Paulo de 06/01



Antes de tudo é preciso dizer que melhorar as condições de moradia das populações de baixa renda nas cidades brasileiras também é distribuir renda e riquezas.
Para essas populações, faz toda a diferença viver em bairros seguros, com provisão pública de boas escolas, postos de saúde de alto nível, redes de água eficientes, disposição adequada de resíduos sólidos e esgotos, transporte coletivo de qualidade, entre outros itens que beneficiam a vida urbana.
Bairros sem riscos e com alta qualidade habitacional e urbanística são produzidos com recursos financeiros e técnicos de toda a sociedade.
São, desse modo, grandes canais de acesso à riqueza social que precisa beneficiar quem mais precisa: os pobres e todos aqueles que vivem em situações vulneráveis.
Portanto, as políticas urbanas e habitacionais não devem ser vistas somente como instrumentos para estimular o mercado e enfrentar crises econômicas.
Devem ser vistas em primeiro lugar como instrumentos para efetivar direitos sociais, construir justiça e equidade social e distribuir riquezas por meio de ambientes saudáveis e territórios bem servidos, equipados e infraestruturados do ponto de vista urbanístico.
Assim, as políticas urbanas e habitacionais precisam ter, basicamente, estratégias e mecanismos para a provisão de terras urbanas adequadas com os atributos positivos acima mencionados.
Nesses espaços, devem ser produzidos empreendimentos habitacionais com alta qualidade arquitetônica e diversidade tipológica que atendam às necessidades da população de baixa renda.
Em geral, em nossa urbanização de mercado, esse tipo de terras urbanas e de empreendimentos habitacionais são mais caros e, portanto, acessíveis somente aos grupos mais ricos.
Para que essa população de baixa renda realmente acesse aquelas terras urbanas e habitações com boa qualidade, é necessário criar canais que não sejam determinados somente pelas leis de mercado. Estas, por definição, não atendem adequadamente aqueles que possuem renda insuficiente.
Regulações e políticas públicas corajosas, democráticas e de direitos se mostram essenciais.

KAZUO NAKANO é arquiteto urbanista, doutorando em demografia da Unicamp.